NOEMÁFAGOS

POR JUDAS

Danilo de Athayde
riscado.
Dante voltou. A cabeça ficou
dentro da boca. As pernas, para fora,
cumprem o que o escrito lhe entregou,
e o nome é outra boca que devora
o homem, enquanto deixa o ato exposto,
na boca de quem fala e vai embora.
De Judas trouxe as costas, não o rosto.
Quem volta fala por quem ficou. Preso,
não pode responder ao nome imposto.
No centro, trinta pratas perdem peso
(o mundo puxa tudo por igual).
O escrito passa pelo centro ileso
até nossa boca, no ritual.
Não pende o fiel. No verbo conjugado,
o réu recebe o peso desigual
de tudo o que entre todos foi passado.
Todos recebem. Por ele, ninguém
responde enquanto o pão é levantado.
Paulo escreve. O pão passa também:
“Recebi do Senhor o que entreguei
a vocês.” Quem entrega aqui a quem?
Na mesma frase, a mão que eu procurei
não vem: “naquela noite, foi entregue”.
O verbo não mudou. O resto, não sei.
O Pai não o poupa. O Filho segue
o escrito e se entrega. De mão em mão,
da boca ao ferro, o entregar prossegue
mudando de mãos. Muda a imputação
e o verbo passa limpo por inteiro,
até um nome arcar com toda a ação.
O mesmo verbo deixa dois herdeiros:
traição e tradição. Fica guardado
um nome para tantos mensageiros.
Jesus foi entregue por Judas. Riscado
o agente, a oração ainda o persegue.
Sem sujeito. Sem tempo. Apagado:
entregue.
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