BUSTROFEDÓN
Danilo de Athayde
Como vira o boi no fim da leira,
virava a linha na escrita dos antigos.
Ia até a borda e regressava escrevendo.
Escrita ao contrário para quem só vai;
mas o campo não tem um só sentido,
e quem lavra conhece os dois de cor.
De cor e de calo o boi conhece
a volta, que ele cumpre sem escolher;
na canga, é a volta que o conduz.
Conduzido, o sulco de ida semeia;
o de volta semeia às escondidas,
a sombra do plantado.
Plantada a sombra, o campo dobra.
Metade do que cresce cresce ao avesso,
raiz ao sol, espiga para baixo.
Para baixo do dizer há outro dizer
que acorda quando o nome vai à borda.
Vai semente, volta arado.
Arado e outro. Volta sem a força
que levou, volta fundo, devagar,
cheirando à terra que abriu.
Abre-se o último sulco. Acaba o campo.
O virar, esse, não acaba. No fim do fim
o boi vira para dentro do virar,
e a linha, já sem leira, vira em si;
e a isso que se volta e não se alcança
deu o latim, língua de arado,
o nome com que ainda hoje o lavramos,
universo.