HORROR VACUI, SÃO FRANCISCO
Danilo de Athayde
Mandaram dourar a sala:
acanto sobre acanto, anjo
empoleirado em anjo, talha
comendo o palmo entre talha e talha.
Que nada sobre; que nem a sombra
encontre um cotovelo de parede nua.
Folha sobre folha de ouro batido.
Mas no avesso da folha, cada átomo
abre uma nave maior que esta nave,
onde o núcleo,
mosca de catedral, zumbe
a léguas das próprias paredes.
Caçado em cada fresta, o vazio
compareceu à própria caça,
deixou que o vestissem de ouro
e reluz.
II
(O tempo, que também não suporta
um palmo de parede desocupada,
prossegue a empreitada por conta própria,
vela sobre vela, incenso sobre incenso,
assenta sobre o ouro
a folha da fuligem.)
III
Em setembro fui lá ouvir música
de quase nada. Três notas e as pausas
do tamanho da nave.
Por cima dela, o céu
de segunda mão, tábuas
pintadas de ar, nuvem a óleo,
azul por empreitada.
Por cima do céu, o vão
que não entrava na pintura.
Só meu ouvido ficou por forrar.
Nas pausas, trabalhava a madeira.
Tomei uma obra pela outra.
No dia cinco de fevereiro
o céu pintado veio abaixo
e as duas naves foram por fim uma só.
Embaixo, uma mulher
vinda de São Paulo
a São Francisco, ver o ouro de perto,
morreu debaixo do céu.
No alto, o maior palmo nu
da história da sala. Trataram
logo de cobri-lo. Desta vez, com lona.