SOBRE
o projeto
Comecei a escrever NOEMÁFAGOS como um livro de poemas, ainda inédito, sobre aquilo que devora o pensável. Este site nasceu depois, quando me perguntei se alguns desses poemas poderiam ser lidos não apenas na tela, mas com ela. Para ler, é preciso dar corda, sustentar um gesto, inclinar, tocar, esperar, perder alguma coisa. Os textos reunidos aqui integrarão o livro.
NOEMÁFAGOS é a outra face da tese de doutorado que desenvolvo, O nome de tudo: Dante, Camões, Drummond e o entendimento do cosmos como alegoria poético-científica. Digo outra face porque os dois trabalhos nascem do mesmo impasse e seguem em direções diferentes. Na tese, leio poetas que ergueram, cada um com a cosmologia de seu tempo, uma imagem do universo. Dessa leitura saiu a noção que move o que faço agora: a escassez alegórica do presente. A expressão nomeia um paradoxo. A cosmologia contemporânea nos permite descrever cada vez melhor o universo, mas nem por isso nos torna mais capazes de imaginá-lo. Dante pôde subir ao Paraíso pelas esferas do seu tempo. Nós, diante de um universo em expansão, composto sobretudo do que não se vê e do que não cabe na escala de nossa percepção, não temos alegorias à altura do que sabemos. A tese examina esse problema nos poemas dos outros. Em NOEMÁFAGOS, tento responder com poemas meus.
Este site reúne experimentos feitos com alguns dos poemas que vão compor o livro. Publicá-los antes do papel tem, admito, sua parte de vitrine. Mas cada poema ganhou aqui uma mecânica própria, um gesto que o leitor precisa executar para que a leitura aconteça. Meu desejo é que essa mecânica seja constitutiva da leitura, que faça parte do argumento do poema, que funcione até o ponto em que falha (e que, idealmente, esta eventual falha, num projeto sobre os limites do conhecimento, também seja leitura).
Em alguns poemas, como Meios e A face, a mecânica já estava no texto. Em outros, precisei procurá-la. O risco é explicar demais, fazer o gesto dizer o que o poema deixava em aberto. Tenho tentado preservar essa abertura.
Ainda não sei o nome desses objetos. Poemas-instalação? Poemas-objeto virtuais? Sei que têm muitos ancestrais. Poesia noemáfaga fica, por enquanto, como o nome desta experiência.
Os poemas são meus, como é minha a concepção de cada mecânica e do modo de apresentá-los. A programação, não. O site foi construído em conversa com o Claude, eu descrevendo o que cada poema exigia, recusando, ajustando, insistindo, e a máquina escrevendo o código. Foi assim que consegui pôr de pé um projeto que eu sabia imaginar, mas não programar sozinho. E não me escapa a ironia de montar um livro sobre devoradores do pensável em diálogo com uma máquina que se alimenta de linguagem. Prefiro acreditar que é coerência.
o autor
Sou Danilo de Athayde. Moro em Salvador, Bahia, e sou poeta, ensaísta, professor e pesquisador. Faço doutorado em Estudos Literários, em cotutela entre a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade do Porto; integro o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e a comissão editorial da revista Em Tese.
No fundo, pesquiso uma pergunta só: como dar a ver, pelo “olho da mente”, o universo que a ciência do nosso tempo consegue tecnicamente descrever? Na tese, chamo de escassez alegórica a falta contemporânea de figuras para esse cosmos. Noemáfagos (o livro e este site) é minha tentativa de responder a essa falta. Entender o universo, e nós dentro dele, pelos meios de que disponho (o poético, o científico, o filosófico). Sei de antemão que nenhum deles bastará.
Publiquei Estar na Grama e Poema é isto: primeiras considerações sobre a arte poética, ambos de 2024, além de Zumbi (2014), Poemas (2013) e Sonhos e outros sonos (2005). Escrevo para experimentar. E para não apagar, naquilo que conheço, o que resiste a ser conhecido.